“meu amor”

eu quero que se foda. é nestes moldes, neste nicho puro e genuíno da palavra e nesta (falsa!) isenção de legitimidade, que eu quero (diga-se: muito!), que o amor – ou partes dele – faça.
digo: dói-me muito! mais até do que qualquer coisa.
quando a 1984 se me (esconderam) mostraram, começaram logo por fazer batota que, (consultando) – é trapaça ou logro ao jogo. a esses cabrões, bodes de rédea curta, ventas do holocausto compassivo, capazes de auferir rendas a não passar das 10 ppp (pulsações por minuto); dizia: a esses cabrões, fica a minha mais profunda e dilacerante ofensa aos seus princípios que, por serem extraídos de calcário, se tornam oxidáveis, obsoletos e, por tudo isso, desprovidos de matéria carnal (da que sente).
fodace pá, o amor dói como o caralho.
quando digo que choro sem razão, – é um vício, uma fantasia, um pretexto para pedir clemência à inclemência que trago no peito. quando digo que choro sem razão, sem amor, sem – digamos – cheiro a carne viva, esbanjo a única oportunidade que tenho para me manter fervoroso, esperto, dotado de vida. nunca chorem sem razão mesmo que haja razão para isso.
fodace pá, o amor dói como o caralho.
eu juro que a culpa não é minha. explico: quando me dá para amar, (que é como quem não tivesse mais nada p´ra fazer), rasgo por dentro de mim a delícia que é a vida e, num gesto de ternura, tristeza suave, meiguice inocente, dou (do latim dare – que por si só dá ênfase ao acto de doação), repito, doue o corpo tingido de sol e branco de cambraia. como quem dá tudo, percebem? depois de tudo isso, lembro-me que nasci, e que nessa altura, nesse instante, oxidavam pálidos e serenos os cabrões da batota, oficiais tuberculosos do regimento do amar nº 1.
fodace pá, o amor dói como o caralho.
o amor é lindo. é brutal.
confesso: um dia, tentei torná-lo simples, indolor. Então lembrei-me de criar um documento só para amar. quem não o tivesse não conseguia amar.
era assim:

Exmo. Senhor

Eu, ______________________________________, portador do BI nº__________________, solicito a Vossa Exa. o direito de amar desde o dia __/__/__ até __/__/__.
Caso não seja possível o direito de amar no dia assinalado, solicito-o nos seguintes dias, por ordem de preferência:

1 –  __/__/__ até __/__/__.
2 –  __/__/__ até __/__/__.
3 –  __/__/__ até __/__/__.

O Requerente
______________________

passadas horas, recebi no correio um bilhete com a frase: “mesmo que seja mentira de uma hora, deixa que te chame meu amor”. pensei então que nunca durante a minha existência (salvo espasmos de gozo), me dirigi à pessoa amada com a palavra “meu amor”. as lágrimas antigas dos meus olhos purificados por esse instante, rolaram de novo sobre o crime hediondo da culpa, da frieza ensanguentada da carne vendida. desde então chorei até ao entretanto. o documento acabara de se tornar ofensivo. percebi então, que dizer “meu amor”, é entornar a existência de alguém sobre um voluptuoso vulto de criança. dizer “meu amor” é, salvo aplicação supérflua, pura magia.
afinal eu não quero que o amor se foda porque o amor é lindo. é brutal.
o que eu quero é que esse louco da vida que voga indeciso aprenda a dizer “meu amor” e que tu, esbelta, esperes ainda a minha carne podre.

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~ by egoista on August 27, 2008.

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